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Revista Amarello



Elena Landinez: um mundo mágico entre a beleza e a tragédia

Texto: Luisa Kiefer


Se pudéssemos ver as baleias por dentro, o que encontraríamos? E dentro de um boto, o que teria? Será que eles são constituídos apenas por seu próprio corpo, pela água que os cerca e pelos resíduos marinhos ou também são feitos de flores, poesia e outros seres? E se imaginássemos que eles carregam dentro de si um universo próprio?

Arrisco dizer que o que a artista Elena Landinez retrata é, de certa forma, um lugar do “e se…”. Um espaço permeado pela imaginação, feito de sonhos e sensibilidade, entretanto, sem, em momento algum, se desconectar do cotidiano e dos problemas reais, palpáveis e urgentes do hoje. Landinez imagina, mas imagina a partir do que vê e do que encontra.

Estamos vivendo um momento de emergência climática – infelizmente uma frase que parece ter perdido o impacto e se tornado clichê, de tanto que é repetida. A maioria dos estudiosos afirma que já passamos do ponto de retorno. Nossas florestas, mares, clima, belezas naturais não voltarão ao que um dia foram. Seria preciso parar agora com toda a ação do homem sobre a natureza – algo que só vimos, em parte, durante o pior momento da emergência global de covid-19. Por isso, é preciso insistir nesse ponto, olhar para a natureza e não vê-la como diferente e distante, mas como parte constituinte daquilo que somos.

É nesse contexto que os desenhos, pinturas e colagens da artista colombiana merecem nossa atenção. Eles nos levam por um passeio pela água, pelos seres que a habitam, pelos navios que por ali passam e por toda sorte de materiais que são ali descartados. Mas, ao contrário da brutalidade, da dor e da angústia que sentimos ao ver queimadas, secas, rios poluídos e tormentas climáticas, o que Landinez nos oferece são obras delicadas, coloridas e alegres, vibrantes como um sonho. É acurado afirmar que sua poética é um convite para a partir da sua imaginação pensarmos novos caminhos. Mais do que uma crítica é uma chamada para sonharmos junto, inventar.

Desde que chegou ao Brasil e se instalou em Salvador, Landinez mora de frente para o mar. Sua relação com a água, na verdade, começa na infância. Natural de Barranquilla, cidade localizada ao norte da Colômbia, a artista nasceu e cresceu às margens do Rio Magdalena, um dos principais do país. O rio deságua no mar Caribe, fazendo dessa região um local rodeado de muita água. Por isso, o universo marítimo e fluvial foi marcante em sua formação. Fez e ainda faz parte da paisagem que habita seus dias e é aquilo que alimenta o seu universo interior.

Caminhar pela praia é ação cotidiana dela. Nessas caminhadas, que fazem parte do ir e vir do dia a dia, coleta objetos, pedras e coisas que acabam sendo transformadas em trabalhos.

“Eu sinto que é como uma arqueologia do cotidiano, de pegar inutilezas, objetos, pedras, lixo e fazer grandes coleções disso. É mapear lugares e criar cartografias imaginadas. Mas a minha relação com o mar também tem a ver com um lugar do inconsciente, porque ele se apresenta muito nos meus sonhos”, conta a artista. “E, na vida real, é como se eu pegasse esses pequenos sinais que vem desse lugar meio oracular, não tem muita explicação, então eu trago isso e crio esses seres meio encantados, coisas que eu chamo de impossibilidades, mas que são possíveis”, completa.

Landinez acredita que a ferramenta do artista é dar vida às coisas que são impossíveis. É desse pensamento que nascem os desenhos de baleias, botos e seres do mar que carregam universos particulares em suas barrigas – os Seres nave –; ou os navios cargueiros que transportam muito mais do que contêineres, como plantas, flores, bichos; ou, ainda, seres que são meio bicho, meio barco. “Eu acho que a criação é da natureza do humano. É trazer aquilo que você imagina para a vida real”, declara.

São desenhos que literalmente misturam o imaginário com aquilo que existe de fato. Construções poéticas que dão a ver a complexidade das relações: ninguém, nem nada, é apenas uma coisa só. Um navio é uma carcaça de ferro, mas é ocupada por pessoas, trafega pelos oceanos, transporta mercadorias de um país a outro, faz parte de um sistema capitalista que rege a sociedade atual. Poderia, talvez, carregar mundos mais bonitos ou mercadorias menos nocivas, é o que nos propõe a artista. Assim como um animal aquático é um ser marinho, vive submerso, come outros peixes, engole aquilo que descartamos de maneira imprópria e poderia se alimentar também de poesia, por que não?


Da mesma forma, há os desenhos com e sobre pedras – pedras em cujas superfícies, se observarmos de perto, podemos perceber micropartículas de plástico que aderiram, com o tempo, na porosidade do mineral –, e os trabalhos que são compostos pelas coleções de objetos coletados da praia e do mar. Nesses, a preocupação socioambiental fica um pouco mais evidente, ainda que em um primeiro momento não se tenha a certeza de onde saíram tantos objetos. Parece um pouco improvável, ou absurdo, que uma fita cassete, uma arma de brinquedo, fones de ouvido, uma fita VHS, um apontador, uma lapiseira, uma escala métrica de madeira, enfim, que tudo isso tenha sido encontrado na água – porque lá se perdeu ou porque alguém resolveu descartar no mar.

Landinez conta que gosta de criar com o lixo, afinal é uma forma de mostrar a realidade. Ao mesmo tempo, a artista também destaca o fascínio causado pelo plástico, que é colorido, funcional e não acaba nunca, não se desfaz, mesmo com a ação da água salgada e do tempo.

“A gente está vivendo essa realidade da poluição e é incrível observar as pessoas e as mínimas coisas, que as vezes ninguém vê. Nos meus percursos diários – uma ida ao banco, levar meus filhos na escola, colocar alguma coisa nos correios – eu vou pela praia e observo esse lugar entre a beleza e a tragédia. Como pode ter tanto plástico no mar?”, interroga a artista. “Eu gosto de pegar lixo e penso muito sobre essa palavra: lixo. O que é lixo? O que é essa cultura do descartável?”.

Há mais perguntas do que respostas pa


ra os questionamentos de Landinez. De fato, produzimos resíduos o tempo todo e não pensamos no destino das coisas após o seu consumo. Para onde vai tudo aquilo que a gente descarta? A artista reforça que não existe planeta para onde o lixo vai e desaparece, ele é acumulado em lugares que nossos olhos muitas vezes não veem, por exemplo, no fundo do mar.

Ela entende que seu trabalho é uma forma de mostrar a beleza que há nesse caos. “É um mundo meio asqueroso, mas que ao mesmo tempo é belo”, afirma. “É um lugar entre o que é desagradável, que as vezes passamos por cima, e o lugar da poesia, do encantamento, porque a vida também é assim, não é? Feita dessas duas coisas”.

Todo esse universo, que a partir das mãos de Landinez se tranforma em mais mágico do que pesaroso, foi tema da primeira exposição individual da artista, Ventanas de mares, realizada no Instituto Cervantes de Salvador, em março desse ano.

Logo que conheci seus trabalhos, uma frase da cineasta francesa Agnès Varda me veio à mente: “Se você abrir uma pessoa, irá achar paisagens. Se me abrir, achará praias”. Gosto da suposição poética de Varda, de que seria possível abrir alguém e encontrar aquilo que o forma para além do corpo humano. O artista, quando produz sua obra e a compartilha com os outros – seja através do cinema, da literatura, das artes visuais –, faz esse processo de forma natural, nos dá a ver o seu mundo interior. Com suas obras, Landinez nos oferece um amálgama formado por doses de observação atenta e consciente, racionalidade em relação ao mundo que a cerca, misturados com sensibilidade, imaginação, toques de lirismo e um pouco do mundo onírico.


Texto originalmente publicado na revista Amarello, edição Água.







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